O impacto da inadimplência nas escolas particulares


A crise econômica, que como vimos solapou o Brasil e comprometeu a renda das famílias, tem efeitos em diversos setores da economia, especialmente nos setores de bens e serviços que podem ser substituídos por alternativas mais baratas ou gratuitas, ainda que não as melhores.


No nosso artigo sobre o impacto da crise e da inadimplência sobre o setor de serviços de planos de saúde (clique aqui), apresentamos o conceito de trade-off, o qual se refere a tudo aquilo que temos de abrir mão para obtermos algo, ou, no caso de conjunturas de crise, para perdermos o mínimo possível.


Podemos pensar esse conceito especificamente para o caso das escolas particulares, pois em uma situação de queda abrupta da renda familiar, essa atividade, apesar de ser considerada um investimento e, portanto, de extrema valia, pode figurar-se enquanto uma das escolhidas para entrar no corte de gastos. Isso acontece porque, ainda que não com mesmo nível de qualidade, é possível recorrer ao ensino público como alternativa para garantir o grau de escolaridade dos filhos.

Esse panorama, que à primeira vista parece ser perceptível somente em sentido teórico, pode ser verificado na experiência brasileira desde a crise de 2015: segundo dados da Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Confenen), no ano de 2016 a rede privada de ensino perdeu 12% dos alunos em relação ao ano de 2014, o que resultou na dispersão de mais de 1 milhão de alunos.


Este cenário, por fim, gera um movimento de mão dupla: enquanto ocorre a evasão das redes privadas, as escolas públicas absorvem os alunos e, por vezes, podem enfrentar problemas estruturais com os novos contingentes de estudantes. O resultado prático disso consiste na queda da qualidade de ensino e, por conseguinte, na provável precarização do ensino básico. Isso nos mostra como quadros de crise persistentes podem ter efeitos perversos no longo prazo.

Até a próxima.
Mateus Brunetto Cari